Para os jornalistas afegãos, a morte ‘faz parte do ofício’

Publicado em 01/05/2018 - 17:06 | Por Redação

Como Shah Marai, que morreu junto com outros oito jornalistas em um ataque em Cabul, os jornalistas afegãos saem correndo de seus escritórios sempre que há um ataque e testemunham regularmente cenas de horror, corpos desmembrados e vidas ceifadas

AF Agência France-Presse
morte de dez jornalistas em um único dia, na segunda-feira (31/4), incluindo Shah Marai, chefe do serviço de Fotografia da AFP no Afeganistão, não vai mudar a sua determinação em continuar cobrindo o conflito, porque eles acreditam se tratar de um dever.
Como Shah Marai, que morreu junto com outros oito jornalistas em um ataque em Cabul, os jornalistas afegãos saem correndo de seus escritórios sempre que há um ataque e testemunham regularmente cenas de horror, corpos desmembrados e vidas ceifadas.
Na segunda-feira, depois de um primeiro atentado suicida em Cabul, um homem-bomba carregando uma câmera para se esgueirar entre os profissionais da imprensa, se explodiu quando eles chegaram para cobrir o incidente.
“A morte está em toda parte, você não sabe onde ou quando vai te atingir”, diz Zakarya Hasani, de 27 anos. “Eu tive que calar o medo. A morte faz parte do ofício, da minha vida profissional”, afirma. Por três anos, Hasani, agora freelancer, trabalhou para a rede de televisão 1-TV, que perdeu um de seus cinegrafistas na segunda-feira.
O jornalista Ghazi Rassouli, de 21 anos, uma das vítimas do ataque, era amigo de Hasani – “o melhor cara do mundo” e, como outras vítimas, estava prestes a se casar. “Tenho que continuar trabalhando, não consigo parar de pensar no que aconteceu aqui porque estou aqui fisicamente, mesmo que me sinta em perigo”, ressalta.

Pressão familiar

“Claro que sou pressionado pela minha família para mudar de emprego. Ontem todo mundo me ligou para dizer ‘largue esse trabalho que nos separa de você’. Mas, por enquanto, a resposta é não”, acrescenta.
Zainab, uma jornalista de 23 anos em um dos principais jornais do país, Hasht-e-Subh, também resiste à pressão de sua mãe. “Ela quer que eu me demita, mas não posso parar de informar, é exatamente o que os talibãs e o Daesh querem”, declarou utilizando a sigla em árabe para o grupo extremista Estado Islâmico.
Questionado pela reportagem, o chefe de redação de Zainab, Parwiz Kawa, destaca “o nível de comprometimento da mídia afegã, formada principalmente por jovens instruídos que sentem a responsabilidade social de continuar a informar”. 

“A imprensa afegã provou sua resiliência” nos ataques de segunda-feira, diz Lotfullah Najafizada, que com menos de 30 anos chefia a rede Tolo News. “Mais de 50 diretor e redatores se encontraram [horas após o ataque] na cena do atentado para dizer ‘se você matar um grupo de jornalistas, outro virá em seguida, ainda maior”. 

No entanto, Najafizada também denuncia a falta de proteção do governo afegão, que “deixa os jornalistas fora das barreiras de segurança, no meio da multidão”.
De acordo com Waliullah Rahmani, diretor do site de informações Khabarnama Media, “a liberdade precisa ser protegida”. “Alguns de nossos jornalistas tiveram que deixar seus postos por causa de ameaças. As mulheres especialmente temem ser alvos” dos insurgentes, explica ele.
Para outros, como Ahmad Farid Halimi, jornalista da rede de informações Kabul News, o ataque de segunda-feira foi a gota d’água. Quando voltou para casa naquela noite, este pai de 28 anos encontrou sua esposa chorando. “Estou trabalhando para a Kabul News há três anos, mas ontem resolvi me demitir”.
“Chegamos ao local dos ataques, ninguém verifica se somos realmente jornalistas, é responsabilidade das forças da ordem”, lamenta Halimi. “Eu não sei o que vou fazer amanhã, mas não quero morrer pelo meu trabalho.”
fonte:Correiobrasiliense

 
 

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