DSTs, como sífilis e Aids, avançam entre os jovens brasilienses

Publicado em 09/10/2017 - 14:55 | Por Redação

Especialistas alertam para o aumento de jovens infectados com DSTs, como Aids, sífilis e úlcera genital. Banalização dos males e pouco uso da camisinha fazem com o que o cenário seja preocupante

Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press

 

As autoridades sanitárias perderam um grande aliado na prevenção das doenças sexualmente transmissíveis (DSTs): o medo. Por não causarem pânico, a população mais jovem banalizou esses males e abriu mão de se proteger. O preservativo, item de primeira necessidade outrora, caiu em desuso. Os efeitos começam a aparecer. Em cinco anos, a Secretaria de Saúde registrou 29 mil novos casos de alguma DST. O alerta é para o perfil dos infectados: jovens entre 20 e 29 anos.

 
A perpetuação e o aumento dessas doenças preocupa especialistas. Entre 2010 e 2015 — levantamento mais recente da Secretaria de Saúde —, 3.010 novas infecções de Aids foram notificadas, 4.290 de sífilis, 6.550 de condiloma (verruga genital) e 3.063, de úlcera genital (leia Raio-X). Esses males estão cada vez mais inseridos na capital federal. Não há distinção de classe social, escolaridade ou raça, como evidenciam as estatísticas.
Apesar de o registro de casos ser confiável, há um hiato que deve ser levado em consideração. Uma parcela de doentes sequer sabe que tem uma DST. “Esse aspecto faz com que a contaminação seja em progressão geométrica, ou seja, a pessoa infectada que não sabe de seu diagnóstico transmite o vírus ou a bactéria para outras, que também ficam no ostracismo”, conclui o coordenador do Polo de Prevenção das DSTs da Universidade de Brasília (UnB), Mário Ângelo Silva.
Ele chama a atenção para outro aspecto: o da confiança. “No começo dos relacionamentos, o uso do preservativo é natural. Mas, quando a relação está estabilizada há mais tempo, isso se perde. Com os jovens, é ainda mais arriscado por eles estarem numa fase de descobertas, nas quais a vida sexual é mais ativa. Transam mais e com um número maior de pessoas”, destaca o especialista.

Prudência

O comportamento da sociedade mudou, com isso, a linguagem das políticas públicas ficou defasada. É o que pensa o sociólogo Roberto Geraldo da Silva, presidente da Associação Esperança e Vida, organização que trata e abriga pacientes com Aids. “A questão envolve aspectos amorosos, sociais, religiosos e culturais. O uso do preservativo está baixo por isso. Hoje em dia, não adianta dizer: ‘Use camisinha’. E acreditar que todo mundo vai aderir”, lamenta.
Roberto explica que a saída é a informação. “É preciso trabalhar a educação sexual nas escolas com mais efetividade. Temos de falar da valorização da vida, dos resultados da camisinha, das doenças e mostrar o dano que elas causam. O uso de preservativo deve ser encarado como o do cinto de segurança e o consumo de água potável”, alerta.
Valéria Paes, consultora da Sociedade Brasileira de Infectologia, explica que a população mais jovem não vivenciou terrores do passado, como mortes por complicações da Aids, e, por isso, tem menos prudência. “Isso enfraquece o apelo pelo uso do preservativo. Os jovens estão se arriscando mais. Por isso, é necessária a modernização na abordagem”, avalia. Ela emenda: “Precisamos disseminar as informações. As pessoas não falam de DSTs como de outras doenças”.
 

Juventude pouco preocupada

 
Apesar do grande volume de informações sobre as DSTs, a parcela mais jovem da população não se atenta à prevenção. Seja por não conhecer alguém doente, seja por não acreditar que isso possa acontecer consigo, a camisinha fica em segundo plano. Durante dois dias, o Correio fez uma enquete com 12 estudantes sobre aspectos relacionados às DSTs. Do total, oito disseram não se preocupar com o assunto quando vão ter relações sexuais.
Na porta de escola de classe média alta, na Asa Sul, alguns adolescentes saem acompanhados dos namorados. Quando perguntados sobre o uso da camisinha, admitem: o tema foi mais frequente. “No começo do namoro, sempre usávamos, mas, agora, não”, conta uma jovem de 17 anos*, na companhia do parceiro de mesma idade.
Aqueles que cultivam muitos parceiros se dizem mais temerosos. “Se eu não conheço a pessoa, não tem jeito: sexo, só com camisinha. Agora, se eu fiquei com a menina, ou sei da vida dela, fico mais tranquilo”, explica um garoto de 17 anos. Ele diz ter perdido a virgindade aos 15, e o pai, um servidor público, o alertou sobre o uso do preservativo. “Várias vezes conversamos sobre isso. Sinto que o meu pai tem mais medo do que eu.”
Uma das poucas entrevistadas que repudiou o sexo sem camisinha é outra jovem de 17 anos. Ela namora há um ano e meio e garante nunca ter transado sem proteção. “Esse é o meu único namorado e, com ele, perdi a virgindade. Mesmo se não fosse assim, não teria relações sem preservativo. Não é por medo dele, mas por nossa segurança. Conheço a família dele e ele desde a infância, mas isso não quer dizer nada”, afirma.
*A reportagem não publicará a identidade dos entrevistados em respeito ao Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) 

Veja também

Comentários